segunda-feira, 31 de maio de 2021

SAGARANA

 

Análise geral

Com contos narrados em primeira e em terceira pessoa, esta coletânea de Guimarães Rosa representa os ideais desta fase, chamando a atenção do leitor para tudo o que pode acontecer no ambiente do sertão mineiro. Com o seu regionalismo universalizante, Rosa aborda tanto os elementos característicos de um local determinado quanto questões que transcendem o sertão, podendo atingir todo e qualquer leitor.

A obra é marcada pela manutenção da tradição da contação de “causos”. Vaqueiros, jagunços e até mesmo animais transmitem uns aos outros as histórias que circulam pelo sertão mineiro. Sagarana trata de temas simultaneamente específicos e amplos, confirmando a grandeza de Guimarães Rosa em sua abordagem das questões humanas.


segunda-feira, 17 de maio de 2021

NASCE UMA CRÔNICA LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

  A moça era bonita, se chamava Fabíola e me perguntou como nascia uma crônica. Entre outras coisas. Ela era repórter do jornal da universidade de Ouro Preto e estava me entrevistando, uma tarefa que eu não desejo a ninguém, enquanto uma câmera de TV gravava tudo. Dei a resposta de sempre. Qualquer coisa pode originar uma crônica. Às vezes, há um assunto em evidência que você é obrigado a comentar. Às vezes, é uma coisa, assim, impressionista; às vezes, é pura invenção, uma frase que sugere uma história, ou um cheiro no ar, ou um incidente banal... Os mistérios, enfim, da criação. Etcetera, etcetera. Não há vezes em que as ideias simplesmente não vêm? Há, há. Acontece muito. Com os anos, as ideias parecem que vão ficando cada vez mais longe, enquanto o seu poder de convocá-las diminui. Você chama e elas não se aproximam. Você grita por socorro e elas continuam longe, lixando as unhas. Você espreme o cérebro e não pinga nada. E hoje nenhum cronista que se respeite pode recorrer ao velho truque de, não tendo assunto, escrever sobre a falta de assunto. Ou desperdiçar papel caro e o tempo do leitor com um parágrafo inteiro só de introdução. Terminada a entrevista, a moça tira um livro meu da sua bolsa. Vai pedir meu autógrafo. Mas ela mesma usa a caneta para escrever alguma coisa no livro antes de passá-lo para mim. Estranho. Ela está me dando meu próprio livro autografado por ela? Leio o que ela escreveu: "Luis: a sua braguilha está aberta". A minha braguilha estava aberta. Passeei por Ouro Preto e dei toda a entrevista com o zíper da calça aberto. Naquela situação em que, na infância (...), nossas mães avisavam que o passarinho poderia fugir. Felizmente, meu passarinho já se resignou ao seu lugar. Nada de mais apareceu, a não ser que a câmera tenha flagrado algo. E eu disse para a Fabíola que ali estava um exemplo de como nasce uma crônica. Eu fatalmente usaria aquilo, num dia de ideias distantes

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

O BARRIL DE AMONTILADO EDGAR ALLAN POE

 O BARRIL DO AMONTILLADO

Suportei o melhor que pude as injúrias de Fortunato; mas, quando ousou insultar-me, jurei vingança. Vós, que tão bem conheceis a natureza de meu caráter, não havereis de supor, no entanto, que eu tenha proferido qualquer ameaça. No fim, eu seria vingado. Este era um ponto definitivamente assentado, mas a própria decisão com que eu assim decidira excluía qualquer idéia de perigo. Assim devia apenas castigar, mas castigar impunemente. Uma injúria permanece irreparada, quando o castigo alcança aquele que se vinga. Permanece, igualmente, sem reparado, quando o vingador deixa de fazer com que aquele que o ofendeu compreenda que e ele quem se vinga.
   É preciso que se saiba que, nem por meio de palavras, nem de qualquer ato, dei a Fortunato motivo para que duvidasse de minha boa vontade. Continuei, como de costume, a sorrir em sua presença, e ele não percebia que o meu sorriso, agora, tinha como origem a idéia da sua imolação.
   Esse tal Fortunato tinha um ponto fraco, embora, sob outros aspectos, fosse um homem digno de ser respeitado e, até mesmo, temido. Vangloriava-se sempre de ser entendido em vinhos. Poucos italianos possuem verdadeiro talento para isso. Na maioria das vezes, seu entusiasmo se adapta aquilo que a ocasião e a oportunidade exigem, tendo em vista enganar os milionários ingleses e austríacos. Em pintura e pedras preciosas, Fortunado, como todos os seus compatriotas, era um intrujão; mas, com respeito a vinhos antigos, era sincero. Sob este aspecto, não havia grande diferença entre nós - pois que eu também era hábil conhecedor de vinhos italianos, comprando-os sempre em grande quantidade, sempre que podia. Uma tarde, quase ao anoitecer, em plena loucura do carnaval, encontrei o meu amigo. Acolheu-me com excessiva cordialidade, pois que havia bebido muito. Usava um traje de truão, muito justo e listrado, tendo à cabeça um chapéu cônico, guarnecido de gizos. Fiquei tão contente de encontra-lo, que julguei que jamais estreitaria a sua mão como naquele momento. - Meu caro Fortunato - disse-lhe eu -, foi uma sorte encontrá-lo. Mas, que bom aspecto tem você hoje! Recebi um barril como sendo de Amontillado, mas tenho minhas duvidas. - Como? - disse ele. - Amontillado? Um barril? Impossível! E em pleno carnaval! - Tenho minhas duvidas - repeti - e seria tolo que o pagasse como sendo de Amontillado antes de consultá-lo sobre o assunto. Não conseguia encontrá-lo em parte alguma, e receava perder um bom negócio. - Amontillado! - Tenho minhas dúvidas. - Amontillado! - E preciso efetuar o pagamento. - Amontillado! - Mas, como você esta ocupado, irei a procura de Luchesi. Se existe alguém que conheça o assunto, esse alguém e ele. Ele me dirá . . . - Luchesi e incapaz de distinguir entre um Amontillado e um Xerez. - Não obstante, ha alguns imbecis que acham que o paladar de Luchesi pode competir com o seu. - Vamos, vamos embora. - Para onde? - Para as suas adegas. - Não, meu amigo. Não quero abusar de sua bondade. Penso que você deve ter algum compromisso. Luchesi. . . - Não tenho compromisso algum. Vamos. - Não, meu amigo. Embora você não tenha compromisso algum, vejo que esta com muito frio. E as adegas são insuportavelmente úmidas. Estão recobertas de salitre. Apesar de tudo, vamos. Não importa o frio. Amontillado! Você foi enganado. Quanto a Luchesi, não sabe distinguir entre Xerez e Amontillado.


   Assim falando, Fortunato tomou-me pelo braço. Pus uma máscara de seda negra e, envolvendo-me bem em meu roquelaire, deixei-me conduzir ao meu palazzo. Não havia nenhum criado em casa, pois que todos haviam saído para celebrar o carnaval. Eu lhes dissera que não regressaria antes da manhã seguinte, e lhes dera ordens estritas para que não arredassem pé da casa. Essas ordens eram suficientes, eu bem o sabia, para assegurai o seu desaparecimento imediato, tão logo eu lhes voltasse as costas. Tomei duas velas de seus candelabros e, dando uma a Fortunato, conduzi-o, curvado, através de uma seqüência de compartimentos, à passagem abobadada que levava à adega. Chegamos, por fim, aos últimos degraus e detivemo-nos sobre o solo úmido das catacumbas dos Montresor.
    O andar de meu amigo era vacilante e os guizos de seu gorro retiniam a cada um de seus passos. - E o barril? - perguntou. - Está mais adiante - respondi. - Mas observe as brancas teias de aranha que brilham nas paredes dessas cavernas. Voltou-se para mim e olhou-me com suas nubladas pupilas, que destilavam as lágrimas da embriaguez. - Salitre? - perguntou, por fim. - Salitre - respondi. - Há quanto tempo você tem essa tosse? Meu pobre amigo pôs-se a tossir sem cessar e, durante muitos minutos, não lhe foi possível responder. - Não é nada - disse afinal. - Vamos - disse-lhe com decisão. - Vamos voltar. Sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado; você é feliz, como eu também o era. Você é um homem cuja falta será sentida. Quanto a mim, não impor-ta. Vamos embora. Você ficará doente, e não quero arcar com essa responsabilidade. Além disso, posso procurar Luchesi . . . - Basta - exclamou ele. - Esta tosse não tem importância; não me matará. Não morrerei por causa de uma simples tosse. -É verdade, é verdade - respondi. - E eu, de fato, não tenho intenção alguma de alarmá-lo sem motivo. Mas você deve tomar precauções. Um gole deste Medoc nos defenderá da umidade. E, dizendo isto, parti o gargalo de uma garrafa que se achava numa longa fila de muitas outras iguais, sobre o chão úmido. - Beba - disse, oferecendo-lhe o vinho. Levou a garrafa aos lábios, olhando-me de soslaio. Fez uma pausa e saudou-me com familiaridade, enquanto seus guizos soavam. - Bebo - disse ele - à saúde dos que repousam enterrados, em torno de nós. - E eu para que você tenha vida longa. Tomou-me de novo o braço e prosseguimos. - Estas cavernas - disse-me - são extensas. - Os Montresor - respondi - formavam uma família grande e numerosa. - Esqueci qual o seu brasão. - Um grande pé de ouro, em campo azul. O pé esmaga uma serpente ameaçadora, cujas presas se acham cravadas no salto. - E a divisa? - Nemo me impune lacessit. - Muito bem! - exclamou. O vinho brilhava em seus olhos e os guizos retiniam. Minha própria imaginação se animou, devido ao Medoc. Através de paredes de ossos empilhados, entremeados de barris e tonéis, penetramos nos recintos mais profundos das catacumbas. Detive-me de novo e, essa vez, me atrevi a segurar Fortunato pelo braço, acima do cotovelo. - O salitre! - exclamei. - Veja como aumenta. Prende-se, como musgo, nas abóbadas. Estamos sob o leito do rio. As gotas de umidade filtram-se por entre os ossos. Vamos. Voltemos, antes que seja tarde demais. Sua tosse... - Não é nada - respondeu ele. - Prossigamos. Mas, antes, tomemos outro gole do Medoc. Parti o gargalo de uma garrafa de vinho De Grâve a dei-a a Fortunato. Ele a esvaziou de um trago. Seus olhos cintilaram com brilho ardente. Pôs-se a rir e atirou a garrafa para o ar, com gesticulação que não compreendi. Olhei-o, surpreso. Repetiu o movimento, um movimento grotesco. - Você não compreende? - perguntou. - Não, não compreendo - respondi. - Então é porque você não pertence à irmandade. - Como? - Não pertence à maçonaria. - Sim, sim. Pertenço. - Você? Impossível! Um maçom? - Um maçom - respondi. - Prove-o - disse ele. - Eis aqui - respondi, tirando de debaixo das dobras de meu roquelaire uma colher de pedreiro. - Você está gracejando! - exclamou recuando alguns passos. - Mas prossigamos: vamos ao Amontillado. - Está bem - disse eu, guardando outra vez a ferramenta debaixo da capa e oferecendo-lhe o braço. Apoiou-se pesadamente em mim. Continuamos nosso caminho, em busca do Amontillado. Passamos através de uma série de baixas abóbadas, descemos, avançamos ainda, tornamos a descer e chegamos, afinal, a uma profunda cripta, cujo ar, rarefeito, fazia com que nossas velas bruxuleassem, ao invés de arder normalmente.
   Na extremidade mais distante da cripta aparecia uma outra, menos espaçosa. Despojos humanos empilhavam-se ao longo de seus muros, até o alto das abóbadas, à maneira das grandes catacumbas de Paris. Três dos lados dessa cripta eram ainda adornados dessa maneira. Do quarto, os ossos haviam sido retirados e jaziam espalhados pelo chão, formando, num dos cantos, um monte de certa altura. Dentro da parede, que, com a remoção dos ossos, ficara exposta, via-se ainda outra cripta ou recinto interior, de uns quatro pés de profundidade, três de largura e seis ou sete de altura. Não parecia haver sido construída para qualquer uso determinado, mas constituir apenas um intervalo entre os dois enormes pilares que sustinham a cúpula das catacumbas, tendo por fundo uma das paredes circundantes de sólido granito.
   Foi em vão que Fortunato, erguendo sua vela bruxuleante, procurou divisar a profundidade daquele recinto. A luz, fraca, não nos permitia ver o fundo. - Continue - disse-lhe eu. - O Amontillado está aí dentro. Quanto a Luchesi .. . . - É um ignorante - interrompeu o meu amigo, enquanto avançava com passo vacilante, seguido imediatamente por mim.
   Num momento, chegou ao fundo do nicho e, vendo 0 caminho interrompido pela rocha, deteve-se, estupidamente perplexo. Um momento após, eu já o havia acorrentado ao granito, pois que, em sua superfície, havia duas argolas de ferro, separadas uma da outra, horizontalmente, por um espaço de cerca de dois pés. De uma delas pendia uma corrente; da outra, um cadeado. Lançar a corrente em torno de sua cintura, para prendê-lo, foi coisa de segundos. Ele estava demasiado atônito para oferecer qualquer resistência. Retirando a chave, recuei alguns passos. - Passe a mão pela parede - disse-lhe eu. - Não poderá deixar de sentir o salitre. Está, com efeito, muito úmida. Permita-me, ainda uma vez, que lhe implore para voltar. Não? Então, positivamente, tenho de deixá-lo. Mas, primeiro, devo prestar-lhe todos os pequenos obséquios ao meu alcance. - O Amontillado! - exclamou o meu amigo, que ainda não se refizera de seu assombro. - É verdade - respondi -, o Amontillado.
    E, dizendo essas palavras, pus-me a trabalhar entre a pilha de ossos a que já me referi. Jogando-os para o lado, deparei logo com uma certa quantidade de pedras de construção e argamassa. Com este material e com a ajuda de minha colher de pedreiro, comecei ativamente a tapar a entrada do nicho. Mal assentara a primeira fileira de minha obra de pedreiro, quando descobri que a embriaguez de Fortunato havia, em grande parte, se dissipado. O primeiro indício que tive disso foi um lamentoso grito, vindo do fundo do nicho. Não era o grito de um homem embriagado. Depois, houve um longo e obstinado silêncio. Coloquei a segunda, a terceira e a quarta fileiras. Ouvi, então, as furiosas sacudidas da corrente. O ruído prolongou-se por alguns minutos, durante os quais, para deleitar-me com ele, interrompi o meu trabalho e sentei-me sobre os ossos. Quando, por fim, o ruído cessou, apanhei de novo a colher de pedreiro e acabei de colocar, sem interrupção, a quinta, a sexta e a sétima fileiras. A parede me chegava, agora, até a altura do peito. Fiz uma nova pausa e, segurando a vela por cima da obra que havia executado, dirigi a fraca luz sobre a figura que se achava no interior.
    Uma sucessão de gritos altos e agudos irrompeu, de repente, da garganta do vulto acorrentado, e pareceu impelir-me violentamente para trás. Durante breve instante, hesitei... tremi. Saquei de minha espada e pus-me a desferir golpes no interior do nicho; mas um momento de reflexão bastou para tranqüilizar-me. Coloquei a mão sobre a parede maciça da catacumba e senti-me satisfeito. Tornei a aproximar-me da parede e respondi aos gritos daquele que clamava. Repeti-os, acompanhei-os e os venci em volume e em força. Fiz isso, e o que gritava acabou por silenciar.
    Já era meia-noite, a minha tarefa chegava ao fim. Completara a oitava, a nona e a décima fileiras. Havia terminado quase toda a décima primeira - e restava apenas uma pedra a ser colocada e rebocada em seu lugar. Ergui-a com grande esforço, pois que pesava muito, e coloquei-a, em parte, na posição a que se destinava. Mas, então, saiu do nicho um riso abafado que me pôs os cabelos em pé. Seguiu-se-lhe uma voz triste, que tive dificuldade em reconhecer como sendo a do nobre Fortunato. A voz dizia: - Ah! ah! ah! . . . eh! eh! eh! . . . Esta é uma boa piada... uma excelente piada! Vamos rir muito no palazzo por causa disso . . . ah! ah! ah! . . . por causa do nosso vinho... ah! ah! ah! - O Amontillado! - disse eu. - Ah! ah! ah! . . . sim, sim . . . o Amontillado. Mas não está ficando tarde? Não estarão nos esperando no palácio. . . a Sra. Fortunato e os outros? Vamos embora. - Sim - respondi -, vamos embora. - Pelo amor de Deus, Montresor! - Sim - respondi -, pelo amor de Deus! Mas esperei em vão qualquer resposta a estas palavras. Impacientei-me. Gritei, alto: - Fortunato! Nenhuma resposta. Tornei a gritar: - Fortunato!
    Ainda agora, nenhuma resposta. Introduzi uma vela pelo orifício que restava e deixei-a cair dentro do nicho. Chegou até mim, como resposta, apenas um tilintar de guizos. Senti o coração opresso, sem dúvida devido à umidade das catacumbas. Apressei-me para terminar o meu trabalho. Com esforço, coloquei em seu lugar a última pedra - e cobri-a com argamassa. De encontro à nova parede, tornei a erguer a antiga muralha de ossos. Durante meio século, mortal algum os perturbou. In pace requiescat! (Edgar Allan Poe).

ESCOLAS LITERÁRIAS

 

Surgimento das escolas literárias no Brasil


As primeiras escolas literárias tiveram início no Brasil durante o século XVI. Alguns cronistas iniciaram as escrituras desse segmento, descrevendo sobre o país no momento em que foi recém descoberto e passava por processo de colonização. 
A literatura brasileira tem pouco mais de quinhentos anos. As escolas literárias surgiram no continente europeu e lá já são milenares. No Brasil o processo foi mais tardio. O primeiro momento em que as escolas literárias começaram a construção de conteúdo foi a partir do Quinhentismo, quando aconteceram todas as manifestações do século XVI. 

As escolas literárias no Brasil são divididas em dois grandes momentos: a Era Colonial e a Era Nacional. Esses dois períodos ficaram marcados e separados pela emancipação política do Brasil. 

A literatura brasileira recebeu influência direta de Portugal. A primeira era, ocorreu no Brasil colônia, quando iniciou a história da nossa grafia - uma das maiores heranças deixadas pelos colonizadores. Já a Era Nacional marcou as características singulares do povo brasileiro. A identidade do pais passava a se multiplicar, unindo o que já tinha de Portugal com características nacionais próprias, criando uma expressão singular que descrevesse nossa cultura, além de aspectos sociais e linguísticos. A Era Nacional é reconhecida como um marco das escolas literárias no Brasil, quando finalmente a autonomia foi estabelecida. 

Escolas literárias e descrição 


Ao todo, existem 14 escolas literárias no mundo e no Brasil, são elas: Trovadorismo, Humanismo, Classicismo, Quinhentismo, Barroco, Arcadismo, Romantismo, Realismo, Naturalismo, Parnasianismo, Simbolismo, Pré-Modernismo, Modernismo e Tendências Contemporâneas (Pós Modernismo). Para compreender o que cada uma representa em seus respectivos períodos, segue lista com descrição: 

Trovadorismo - Foi o primeiro movimento dentro das escolas literárias. O trovadorismo se baseou na literatura e poesia, durante o século XI, na idade média. Teve início na Europa, e deu o ponta pé inicial para as seguintes manifestações literárias.
O trovadorismo surgiu com o fim do Império Romano (destruído no século V com a invasão dos bárbaros, vindos do norte da Europa), e perdurou até o século XV.

Humanismo – Esse período retrata o que o próprio nome diz: o homem e a sua valorização. Surge mais atenção à natureza humana. A literatura mantém características religiosas, mas vem pra dar atenção a uma das maiores criações de Deus, a humanidade. Na Itália, destacam-se grandes artistas como: Dante Alighieri autor da Divina Comédia, Giovanni Bocaccio e Francesco Petrarca. Em Portugal, destaca-se o teatro do poeta de Gil Vicente autor de A Farsa de Inês Pereira.

Classicismo – O racionalismo impera nesse período, que gerou muitas reflexões em toda sociedade, principalmente nos artistas. O individual é deixado de lado e pensamentos mais amplos sobre as verdades universal são foco de discussão. O período é caracterizado também pela valorização da cultura greco-romana.
Destacam-se os franceses François Rabelais e Michel de Montaigne. Na Inglaterra, o poeta de maior sucesso foi William Shakespeare se destaca na poesia lírica e no teatro. Na Espanha, Miguel de Cervantes cria novelas humoristicas e cria o personagem Dom Quixote e seu escudeiro, Sancho Pança, na famosa obra Dom Quixote de La Mancha. 

Características do Classicismo:

•    Universalismo
•    Racionalismo
•    Antropocentrismo
•    Paganismo
•    Neoplatonismo
•    Referência à cultura grega

Quinhentismo – Neste período foi retratado todos os aspectos sobre o descobrimento do Brasil. Desde a chegada da frota comandada por Pedro Álvares Cabral à localidade da Ilha de Vera Cruz, ocorrida no dia 22 de abril de 1500. Durante esse trecho das escolas literárias, foram escritas cartas, crônicas e sermões.

Barroco – Em meio a um período em que a arte ganha espaço, e a filosofia passa a questionar a existência do homem entre outros conflitos existenciais. Dentre as escolas literárias essa é a que surge com a proposta de fazer com que o homem redescubra sua fé. 

Arcadismo – Essa escola literária vem com a proposta de conectar o homem à natureza através da arte. Sua essência é baseada no resgate da antiguidade clássica, que não separava a arte da técnica. O processo não estaria ligado diretamente a habilidade, mas sim ao saber fazer, e isso difundia-se. 

Romantismo – É marcado pela expressão e valorização dos sentimentos, destaque para dualidade entre o amor e o sofrimento. A liberdade para criar ganha espaço lado a lado com a fantasia.

Principais escritores da época: Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Giacomo Leopardi, James Fenimore Cooper, Alexandre Dumas (pai) e Edgard Allan Poe.



 Obra do pintor romantista Eugené Delacroix – A liberdade guiano o povo(Foto: Wikipedia)


Realismo – Primeiro ideal que aponta o homem como fruto do meio. Esse movimento critica o capitalismo, a valorização extrema ao dinheiro, e busca descrever o homem de forma real, como um ser que tem qualidades e defeitos. Entende-se que nem sempre o mal faz parte do homem, mas sim do estimulo que ele recebe do meio. 

Principais representantes: Gustave Flaubert autor de Madame Bovary, Charles Dickens (Oliver Twist e David Copperfield), Charlotte Brontë (Jane Eyre), Emily Brontë (O Morro dos Ventos Uivantes), Fiodor Dostoievski, Leon Tolstoi, Eça de Queiroz, Cesário Verde, Antero de Quental e Émile Zola, Eugênio de Castro, Camilo Pessanha, Arthur Rimbaud, Charles Baudelaire.

Naturalismo – No mesmo período em que o realismo entrou em ascensão, o naturalismo também surgiu. Os conceitos de ambos se interligam, porém com algumas ressalvas. O naturalismo também prega que o homem é fruto do meio em que vive e que a natureza do ser se modifica de acordo com os incentivos que recebe. A principal diferença é que no romance realista, a classe alta é a pensante e traz mais características da mesma. Já o romance naturalista retrata a comunidade mais pobre. O livro O Cortiço de Aluísio de Azevedo descreve bem essas manifestações. 

Parnasianismo – Marcado por uma arte rebuscada e uma linguagem singular e mais refinada, essa escola literária produzia rimas ricas. O parnasianismo é uma contradição ao romantismo, ele busca retratar a realidade dos fatos sem enfeites e possibilidades. Os poetas deixam de lado a emoção e a própria interpretação sobre os fatos, analisando de uma maneira mais imparcial. A estética é muito valorizada nessa escola.

Simbolismo – Essa é uma época onde os conceitos de todas as escolas citadas começam a se dissolver, já introduzindo o pré-modernismo. O simbolismo busca uma série de novos conceitos sociais como a fé, a religião, as crenças. 
Características gerais:

•    Uso de figuras de linguagem (sinestesia e aliteração)
•    Musicalidade (A música acima de tudo)
•    Valorização das manifestações espirituais e metafísicas
•    Rebusca valores românticos
•    Aversão ao que é real
•    Amor ao lúdico e sublime
•    Tenta buscar a essência do ser humano
•    Oposição entre matéria e espírito

Principais autores: Alphonsus de Guimarães e Cruz e Sousa.

Pré Modernismo –Na busca por esses novos conceitos, o período foi marcado por pensamentos convergentes, ecléticos, mas ainda sem nada formado. Notava-se um esforço dos escritores e artistas da época em se tornarem mais modernos, porém os perfis ainda eram muito engessados. Essa escola ficou entre o conservadorismo e a renovação. 

Principais autores: Augusto dos Anjos, Coelho Neto, Euclides da Cunha, Graça Aranha, Lima Barreto, Monteiro Lobato e Raul de Leoni.

Modernismo – Entre as escolas literárias essa foi uma das que iniciaram com maior marco e com maior traço característico de sua essência. Marcada pelo início da semana de arte moderna, em 1922, o modernismo deu uma nova cara a linguagem, com muita liberdade de criação sem apego ao passado. Um novo conceito artístico também surgiu. 
Os artistas que mais exploraram essas possibilidades do modernismo foram Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto (um mais lírico, outro mais objetivo, concreto), pelos romancistas de 30, na prosa intimista de Clarice Lispector. 

Pós modernismo – Continua seguindo o conceito liberal do da escola do Modernismo, três décadas pós-ditadura. A poesia é marcada pela variação contemporânea, marcada pelo cotidiano e com crítica ao período de opressão causada pela ditadura militar. 

Principais autores: Principais autores: Cristóvão Tezza, Chico Buarque, João Gilberto Noll, Bernardo Carvalho, Dias Gomes, Gianfrancesco Guarnieri e Caio Fernando Abreu.


sexta-feira, 13 de novembro de 2020

CIGARRA VERDADEIRA

 

Cigarra-verdadeira

    Parente dos canários, a cigarra-verdadeira é encontrada somente na Mata Atlântica. Vive em grupo e realiza longos voos, sendo que gosta de sobrevoar áreas mais abertas, como pântanos e plantações de arroz. Não costuma ficar muito tempo na mesma área da floresta.

    Conhecida como Sporophila falcirostris pelos cientistas, a cigarra-verdadeira ganhou esse nome porque a parte de cima do seu bico é curva e bem mais fina do que a parte de baixo, fazendo com que ele pareça uma foice. Daí o termo falcirostris, que vem do latim e significa “em forma de foice”. Tanto as fêmeas quanto os jovens dessa espécie têm o bico escuro, enquanto, nos machos, ele é amarelo.

    As cores diferentes do bico, porém, não são as únicas características que diferenciam as cigarras-verdadeiras. A plumagem também. As fêmeas e os jovens são pardos, enquanto os machos adultos têm uma plumagem cinza-azulado e uma faixa branca nas penas das asas.

    A cigarra-verdadeira, como muitas espécies de aves, come sementes, sobretudo as de bambu, suas preferidas. É provável que ela se desloque para outros lugares da mata em busca de alimento. Porém, como muitas espécies de bambu, nativas de Mata Atlântica, não são mais encontradas, a população de cigarras-verdadeiras tende a diminuir. Além disso, a captura e o comércio ilegal dessas aves para criação em cativeiro também contribuem para o seu desaparecimento.

    Considerada uma ave rara na natureza, a cigarra-verdadeira já não é mais encontrada em determinados lugares. Por essa razão, os cientistas sabem muito pouco sobre o seu comportamento. Algo, porém, é certo: preservar o ambiente em que ela vive, evitar a sua captura e o seu comércio são ações muito importantes para que possamos continuar apreciando a beleza dessa ave não apenas em fotografias.

Maria Alice S. Alves e Maurício B. Vecchi. Revista “Ciência Hoje das Crianças”. Edição 175

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

CONTO AS FORMIGAS Lygia Fagundes Telles

 Quando minha prima e eu descemos do táxi já era quase noite. Ficamos imóveis diante do velho sobrado de janelas ovaladas, iguais a dois olhos tristes, um deles vazado por uma pedrada. Descansei a mala no chão e apertei o braço da prima.

– É sinistro.

Ela me impeliu na direção da porta. Tínhamos outra escolha? Nenhuma pensão nas redondezas oferecia um preço melhor a duas pobres estudantes, com liberdade de usar o fogareiro no quarto, a dona nos avisara por telefone que podíamos fazer refeições ligeiras com a condição de não provocar incêndio. Subimos a escada velhíssima, cheirando a creolina.

– Pelo menos não vi sinal de barata – disse minha prima.

A dona era uma velha balofa, de peruca mais negra do que a asa da graúna. Vestia um desbotado pijama de seda japonesa e tinha as unhas aduncas recobertas por uma crosta de esmalte vermelho-escuro descascado nas pontas encardidas. Acendeu um charutinho.

– É você que estuda medicina? – perguntou soprando a fumaça na minha
direção.
– Estudo direito. Medicina é ela.

A mulher nos examinou com indiferença. Devia estar pensando em outra coisa quando soltou uma baforada tão densa que precisei desviar a cara. A saleta era escura, atulhada de móveis velhos, desparelhados. No sofá de palhinha furada no assento, duas almofadas que pareciam ter sido feitas com os restos de um antigo vestido, os bordados salpicados de vidrilho.

– Vou mostrar o quarto, fica no sótão – disse ela em meio a um acesso de tosse. Fez um sinal para que a seguíssemos.

– O inquilino antes de vocês também estudava medicina, tinha um caixotinho de ossos que esqueceu aqui, estava sempre mexendo neles.

Minha prima voltou-se: – Um caixote de ossos?

A mulher não respondeu, concentrada no esforço de subir a estreita escada de caracol que ia dar no quarto. Acendeu a luz. O quarto não podia ser menor, com o teto em declive tão acentuado que nesse trecho teríamos que entrar de gatinhas. Duas camas, dois armários e uma cadeira de palhinha pintada de dourado. No ângulo onde o teto quase se encontrava com o assoa(ho, estava um caixotinho coberto com um pedaço de plástico. Minha prima largou a mala e pondo-se de joelhos puxou o caixotinho pela alça de corda. Levantou o plástico. Parecia fascinada.

– Mas que ossos tão miudinhos! São de criança? – Ele disse que eram de adulto. De um anão.

– De um anão? É mesmo, a gente vê que já estão formados… Mas que maravilha, é raro à beça esqueleto de anão. E tão limpo, olha aí admirou-se ela. Trouxe na ponta dos dedos um pequeno crânio de uma brancura de cal. – Tão perfeito, todos os dentinhos!

– Eu ia jogar tudo no lixo, mas se você se interessa pode ficar com ele. O banheiro é aqui ao lado, só vocês é que vão usar, tenho o meu lá embaixo. Banho quente, extra. Telefone, também. Café das sete às nove, deixo a mesa posta na cozinha com a garrafa térmica, fechem bem a garrafa – recomendou coçando a cabeça. A peruca se deslocou ligeiramente. Soltou uma baforada final: – Não deixem a porta aberta senão meu gato foge.

Ficamos nos olhando e rindo enquanto ouvíamos o barulho dos seus chinelos de salto na escada. E a tosse encatarrada. Esvaziei a mala, dependurei a blusa amarrotada num cabide que enfiei num vão da veneziana. prendi na parede, com durex, uma gravura de Grassmann e sentei meu urso de pelúcia em cima do travesseiro. Fiquei vendo minha prima subir na cadeira, desatarraxar a lâmpada fraquíssima que pendia de um fio solitário no meio do teto e no lugar atarraxar uma lâmpada de duzentas velas que tirou da sacola. C quarto ficou mais alegre. Em compensação, agora a gente podia ver que a roupa de cama não era tão alva assim, alva era a pequena tíbia que ela tirou de dentro do caixotinho. Examinou-a. Tirou uma vértebra e olhou pelo buraco tão reduzido como o aro de um anel. Guardou-as com a delicadeza com que se amontoam ovos numa caixa.

– Um anão. Raríssimo, entende? E acho que não falta nenhum ossinho, vou trazer as ligaduras, quero ver se no fim da semana começo a montar ele.

Abrimos uma lata de sardinha que comemos com pão, minha prima tinha sempre alguma lata escondida, costumava estudar até a madrugada e depois fazia sua ceia. Quando acabou o pão, abriu um pacote de bolacha Maria.

– De onde vem esse cheiro? – perguntei farejando. Fui até o caixotinho, voltei, cheirei o assoalho.
– Você não está sentindo um cheiro meio ardido?
– É de bolor. A casa inteira cheira assim – ela disse. E puxou o caixotinho para debaixo da cama.

No sonho, um anão louro de colete xadrez e cabelo repartido no meio entrou no quarto fumando charuto. Sentou-se na cama da minha prima, cruzou as perninhas e ali ficou muito sério, vendo-a dormir. Eu quis gritar, tem um anão no quarto!, mas acordei antes. A luz estava acesa. Ajoelhada no chão, ainda vestida, minha prima olhava fixamente algum ponto do assoalho.

– Que é que você está fazendo aí? – perguntei.
– Essas formigas. Apareceram de repente, já enturmadas. Tão decididas, está vendo?

Levantei e dei com as formigas pequenas e ruivas que entravam em trilha espessa pela fresta debaixo da porta, atravessavam o quarto, subiam pela parede do caixotinho de ossos e desembocavam lá dentro, disciplinadas como um exército em marcha exemplar.

– São milhares, nunca vi tanta formiga assim. E não tem trilha de volta, só de ida – estranhei.
– Só de ida.

Contei-lhe meu pesadelo com o anão sentado em sua cama.

– Está debaixo dela – disse minha prima e puxou para fora o caixotinho.
Levantou o plástico.
– Preto de formiga! Me dá o vidro de álcool.
– Deve ter sobrado alguma coisa aí nesses ossos e elas descobriram, formiga descobre tudo. Se eu fosse você, levava isso lá pra fora.

– Mas os ossos estão completamente limpos, eu já disse. Não ficou nem um fiapo de cartilagem, limpíssimos. Queria saber o que essas bandidas vêm fuçar aqui.

Respingou fartamente o álcool em todo o caixote. Em seguida, calçou os sapatos e, como uma equilibrista andando no fio de arame, foi pisando firme, um pé diante do outro na trilha de formigas. Foi e voltou duas vezes. Apagou o cigarro. Puxou a cadeira. E ficou olhando dentro do caixotinho.

– Esquisito. Muito esquisito. – O quê?

– Me lembro que botei o crânio em cima da pilha, me lembro que até calcei ele com as omoplatas para não rolar. E agora ele está aí no chão do caixote, com uma omoplata de cada lado. Por acaso você mexeu aqui?

– Deus me livre, tenho nojo de osso! Ainda mais de anão.

Ela cobriu o caixotinho com o plástico, empurrou-o com o pé e levou o fogareiro para a mesa, era a hora do seu chá. No chão, a trilha de formigas mortas era agora uma fita escura que encolheu. Uma formiguinha que escapou da matança passou perto do meu pé, já ia esmagá-la quando vi que levava as mãos à cabeça, como uma pessoa desesperada. Deixei-a sumir numa fresta do assoalho.

Voltei a sonhar aflitivamente, mas dessa vez foi o antigo pesadelo com os exames, o professor fazendo uma pergunta atrás da outra e eu muda diante do único ponto que não tinha, estudado. As seis horas o despertador disparou veementemente. Travei a campanhia. Minha prima dormia com a cabeça coberta. No banheiro, olhei com atenção para as paredes, para o chão de cimento, à procura delas. Não vi nenhuma. Voltei pisando na ponta dos pés e então entreabri as folhas da veneziana. O cheiro suspeito da noite tinha desaparecido. Olhei para o chão: desaparecera também a trilha do exército massacrado. Espiei debaixo da cama e não vi o menor movimento de formigas no caixotinho coberto.

Quando cheguei por volta das sete da noite, minha prima já estava no quarto. Achei-a tão abatida que carreguei no sal da omelete, tinha a pressão baixa. Comemos num silêncio voraz. Então me lembrei.

– E as formigas?
– Até agora, nenhuma.
– Você varreu as mortas? Ela ficou me olhando.

– Não varri nada, estava exausta. Não foi você que varreu?

– Eu?! Quando acordei, não tinha nem sinal de formiga nesse chão, estava certa que antes de deitar você juntou tudo… Mas, então, quem?!

Ela apertou os olhos estrábicos, ficava estrábica quando se preocupava.
– Muito esquisito mesmo. Esquisitíssimo.

Fui buscar o tablete de chocolate e perto da porta senti de novo o cheiro, mas seria bolor? Não me parecia um cheiro assim inocente, quis chamar a atenção da minha prima para esse aspecto, mas ela estava tão deprimida que achei melhor ficar quieta. Espargi água-de-colônia Flor de Maçã por todo o quarto (e se ele cheirasse como um pomar?) e fui deitar cedo. Tive o segundo tipo de sonho, que competia nas repetições com o tal sonho da prova oral, nele eu marcava encontro com dois namora dos ao mesmo tempo. E no mesmo lugar. Chegava o primeiro e minha aflição era levá-lo embora dali antes que chegasse o segundo. O segundo, desta vez, era o anão. Quando só restou o oco de silêncio e sombra, a voz da minha prima me fisgou e me trouxe para a superfície. Abri os olhos com esforço. Ela estava sentada na beira da minha cama, de pijama e completamente estrábica.

– Elas voltaram.
– Quem?
– As formigas. Só atacam de noite, antes da madrugada. Estão todas aí de novo. A trilha da véspera, intensa, fechada, seguia o antigo percurso da porta até o caixotinho de ossos por onde subia na mesma formação até desformigar lá dentro. Sem caminho de volta.

– E os ossos?
Ela se enrolou no cobertor, estava tremendo.

– Aí é que está o mistério. Aconteceu uma coisa, não entendo mais nada!
Acordei pra fazer pipi, devia ser umas três horas. Na volta, senti que no quarto tinha algo mais, está me entendendo? Olhei pro chão e vi a fila dura de formigas, você se lembra? Não tinha nenhuma quando chegamos. Fui ver o caixotinho, todas se trançando lá dentro, lógico, mas não foi isso o que quase me fez cair pra trás, tem uma coisa mais grave: é que os ossos estão mesmo mudando de posição, eu já desconfiava mas agora estou certa, pouco a pouco eles estão… Estão se organizando.
– Como, se organizando?
Ela ficou pensativa. Comecei a tremer de frio, peguei uma ponta do seu cobertor. Cobri meu urso com o lençol.

– Você lembra, o crânio entre as omoplatas, não deixei ele assim. Agora é a coluna vertebral quejá está quase formada, uma vértebra atrás da outra, cada ossinho tomando o seu lugar, alguém do ramo está montando o esqueleto, mais um pouco e… Venha ver!

– Credo, não quero ver nada. Estão colando o anão, é isso?

Ficamos olhando a trilha rapidíssima, tão apertada que nela não caberia sequer um grão de poeira. Pulei-a com o maior cuidado quando fui esquentar o chá. Uma formiguinha desgarrada (a mesma daquela noite?) sacudia a cabeça entre as mãos. Comecei a rir e tanto que se o chão não estivesse ocupado, rolaria por ali de tanto rir. Dormimos juntas na minha cama. Ela dormia ainda quando saí para a primeira aula. No chão, nem sombra de formiga, mortas e vivas desapareciam com a luz do dia.

Voltei tarde essa noite, um colega tinha se casado e teve festa. Vim animada, com vontade de cantar, passei da conta. Só na escada é que me lembrei: o anão. Minha prima arrastara a mesa para a porta e estudava com o bule fumegando no fogareiro.

– Hoje não vou dormir, quero ficar de vigia – ela avisou. O assoalho ainda estava limpo. Me abracei ao urso.
– Estou com medo.
Ela foi buscar uma pílula para atenuar minha ressaca, me fez engolir a pílula com um gole de chá e ajudou a me despir.

– Fico vigiando, pode dormir sossegada. Por enquanto não apareceu nenhuma, não está na hora delas, é daqui a pouco que começa. Examinei com a lupa debaixo da porta, sabe que não consigo descobrir de onde brotam?

Tombei na cama, acho que nem respondi. No topo da escada o anão me agarrou pelos pulsos e rodopiou comigo até o quarto, Acorda, acorda! Demorei para reconhecer minha prima que me segurava pelos cotovelos. Estava lívida. E vesga.

– Voltaram – ela disse.
Apertei entre as mãos a cabeça dolorida.
– Estão aí? – Ela falava num tom miúdo, como se uma formiguinha falasse com sua voz.

– Acabei dormindo em cima da mesa, estava exausta. Quando acordei, a trilha já estava em plena movimentação. Então fui ver o caixotinho, aconteceu o que eu esperava…

– O que foi? Fala depressa, o que foi?
Ela firmou o olhar oblíquo no caixotinho debaixo da cama.
– Estão mesmo montando ele. E rapidamente, entende? O esqueleto já está inteiro, só falta o fêmur. E os ossinhos da mão esquerda, fazem isso num instante. Vamos embora daqui.

– Você está falando sério?
– Vamos embora, já arrumei as malas.
A mesa estava limpa e vazios os armários escancarados.
– Mas sair assim, de madrugada? Podemos sair assim?
– Imediatamente, melhor não esperar que a bruxa acorde. Vamos, levanta!
– E para onde a gente vai?

– Não interessa, depois a gente vê. Vamos, vista isto, temos que sair antes que o anão fique pronto.

Olhei de longe a trilha: nunca elas me pareceram tão rápidas. Calcei os sapatos, descolei a gravura da parede, enfiei o urso no bolso da japona e fomos arrastando as malas pelas escadas, mais intenso o cheiro que vinha do quarto, deixamos a porta aberta. Foi o gato que miou comprido ou foi um grito?

No céu, as últimas estrelas já empalideciam. Quando encarei a casa, só a janela vazada nos via, o outro olho era penumbra.

 

UM APÓLOGO - MACHADO DE ASSIS

 

Um Apólogo – conto de Machado de Assis

By  | 17/03/2013

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados…

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando…

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto…

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima…

A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: — Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

A SERENÍSSIMA REPÚBLICA!

  A Sereníssima República (Conferência do Cônego Vargas) – Conto de Machado de Assis By  admin   |   09/03/2013 0 Comment Meus senhores, Ant...